“Este é um tipo de agricultura que se pode fazer de salto alto”

Promove o ideal de ‘cidades comestíveis’ em nome da sustentabilidade e encontrara nas hortas verticais uma solução para promover a produção local, de “quilómetro zero”. A associação sem fins lucrativos Upfarming tem desenvolvido projetos em escolas, prisões e hospitais e, mais recentemente, na sede da Comunidade Intermunicipal do Oeste, com a instalação de cinco torres, cada uma com capacidade para 44 plantas. Foram 40 quilos de várias hortícolas de folha, como acelga, alface, coentro, couve Kale, manjericão, salsa e couve pak choi. Fomos perceber como funciona este conceito destinado a uma população urbana longe dos campos, mas ávida dos seus sabores.
- Em que consiste, de um modo geral, a Upfarming?
- A Upfarming é uma associação sem fins lucrativos, cuja missão é promover a literacia alimentar, o desenvolvimento comunitário e o bem-estar urbano através de projetos integrados de agricultura urbana, com foco na agricultura vertical. Desenvolvemos projetos em escolas, prisões, hospitais e comunidades, transformando espaços urbanos em ambientes vivos de aprendizagem, produção e bem-estar.
- Qual foi a ideia original que os levou a criar/desenvolver este conceito?
- A Upfarming surgiu de um desafio lançado pelo Museu de Lisboa ao atelier de arquitetura Parto para a conceção de uma ideia utópica - transformar Lisboa numa cidade comestível. A solução proposta lançava a hipótese de utilizarmos hortas verticais como uma ferramenta inovadora para a produção de alimentos de forma eficiente em espaços reduzidos. Esta provocação pretendia simultaneamente criar novos pontos de encontro e de partilha, que permitissem não apenas aumentar a produtividade agrícola nas cidades, mas sobretudo reaproximar as pessoas da produção dos seus próprios alimentos, tentando assim influenciar positivamente os seus hábitos de consumo. Este foi o embrião que deu origem à Upfarming.
- É possível quantificar a poupança de água que se obtém nas hortas verticais?
É possível, mas dependerá sempre do tipo de tecnologia de produção com a qual se faz esta comparação.
Se a comparação for feita em relação à produção tradicional, então a poupança de água será enorme, facilmente na casa dos 90%. Se, por outro lado, a comparação for feita com a agricultura tecnologicamente mais avançada, a chamada ‘agricultura de precisão’, a poupança não será tão expressiva.
Mas existe.
Tal acontece porque o uso de hortas verticais elimina diversos fatores que levam à perda de água nos sistemas de produção convencionais, designadamente as perdas por percolação (água que se infiltra no solo para profundidades que as raízes não conseguem atingir) e por escorrimento superficial (água que, ao invés de se infiltrar no solo, escorre através da superfície, causando erosão do solo).
Usando hortas verticais, as perdas de água ficam limitadas a dois fatores, com pesos diferentes: evaporação, ainda que muito limitada (porque a água circula no interior das torres, protegida da luz solar), e transpiração das plantas, processo fisiológico natural que é responsável pela maioria das perdas de água neste sistema.
Ou seja, dos quatro principais fatores de perda de água de rega num sistema agrícola, dois (percolação e escorrimento) são eliminados e um (evaporação) é fortemente limitado. As hortas verticais são, portanto, uma das tecnologias atuais com melhor eficiência no uso de água.
- Quanto tempo demora a desenvolver, por exemplo, uma alface ou uma couve (ou outro vegetal habitualmente cultivado)?
- As hortas verticais estão particularmente bem-adaptadas para a produção de hortícolas de folha (alface, acelga, espinafre, etc.), ainda que possam produzir também hortícolas de fruto (tomate, courgette, pimento, etc.).
Dentro destas culturas existem diferenças importantes quanto à duração do ciclo de produção: se uma alface demora três a quatro semanas a estar pronta para consumir, uma courgette pode levar um mês até dar o primeiro fruto, ficando depois ainda várias semanas a produzir novos frutos.
A duração do ciclo de produção também depende muito da estação do ano, especialmente quando se produz ao ar livre, como é o caso da horta instalada na OesteCIM. Nalguns casos, o que no verão demora três semanas a estar pronto para colher, no inverno pode demorar o dobro.
- Desenvolvem o vosso trabalho junto de escolas e estabelecimentos prisionais. Com quantas instituições já colaboraram?
- Além das escolas e estabelecimentos prisionais, colaboramos também com comunidades e com instituições hospitalares, nomeadamente, com o Hospital Júlio de Matos e a Casa de Saúde do Telhal. No caso das escolas, trabalhamos com a Escola Básica Dom Luís da Cunha, do Agrupamento de Escolas Vergílio Ferreira, em Alvalade, e no caso dos estabelecimentos prisionais, já trabalhámos com o EP de Torres Novas e, atualmente, estamos a trabalhar no EP Leiria Jovens.
Para a Upfarming todas as escolas deviam ter hortas, todos os hospitais, todos os bairros, todas as prisões, todos os escritórios
- Desses projetos mencionados, qual a história mais marcante que ficou na vossa memória?
- Mais do que uma história em particular, o que nos marca é a forma como somos constantemente surpreendidos pelos nossos beneficiários. Trabalhamos com pessoas privadas de liberdade, em contextos prisionais e hospitalares, que enfrentam desafios pessoais e sociais extremamente complexos e que, ainda assim, revelam uma resiliência extraordinária e um entusiasmo contagiante nas atividades da horta. Quando trabalhamos com escolas ficamos sempre admirados com a curiosidade, a criatividade e a forma única de pensar das crianças. Muitas vezes são elas que nos ensinam a encarar tudo de uma forma mais simples.
- Que outras vantagens estão relacionadas a este conceito?
- Para além da enorme eficiência no uso de água, destacaríamos outras três grandes vantagens:
- As hortas verticais podem ser instaladas em qualquer local. Esta é uma vantagem muito importante quando se pensa em produção de alimentos em espaços urbanos, uma vez que a área disponível é sempre um recurso escasso. Poder produzir alimentos em locais pavimentados, terraços, varandas, é sem dúvida uma das principais vantagens desta tecnologia e é, de resto, uma das razões pelas quais a Upfarming a usa.
- Se à vantagem anterior se adicionar a verticalidade, isto é, o fator de multiplicação do espaço, ainda melhor. É o que estas hortas permitem: ao produzir verticalmente, estamos de facto a ‘criar’ espaço em locais onde este não existe. Um exemplo concreto: se num metro quadrado de solo se conseguem plantar cerca de 15 alfaces, numa horta vertical como as que temos na OesteCIM, que ocupa o mesmo metro quadrado, podem ser plantadas 44… ou seja, triplicou-se o espaço de produção.
- Por fim, a facilidade de uso é outra das enormes vantagens desta tecnologia. Se muitas pessoas fogem da agricultura por causa do esforço físico e da ‘sujidade’ a ela associados, no caso das hortas verticais nada disso acontece. Montar uma torre é semelhante a montar um Lego e demora 10 minutos. O mesmo para desmontar. Plantar ou colher uma torre demora 5 minutos. Tudo isto em pé, sem necessidade de esforço físico e de forma limpa. Costumamos dizer que é um tipo de agricultura que se pode fazer de salto alto.
- Que mitos são obrigados a desconstruir a respeito do Upfarming?
- O mito principal talvez seja o de que a agricultura vertical é uma ferramenta complexa. Na verdade, acreditamos que é muito mais simples trabalhar com hortas verticais do que com as convencionais hortas horizontais, que exigem um esforço físico e um gasto de recursos mais significativo. As hortas verticais são uma ferramenta bastante eficiente, prática e que nos permite trabalhar com todos os nossos públicos-alvo, desde crianças a idosos, precisamente por ser uma ferramenta bastante inteligível e prática.
O que podemos dizer é que uma das visões que nos move é a ideia de criar ‘cidades comestíveis’
- Quantos vegetais conseguiram cultivar no projeto desenvolvido com a OesteCIM?
- Na OesteCIM estão instaladas 5 torres, cada uma com capacidade para 44 plantas. Da primeira colheita resultaram perto de 220 plantas (cerca de 40 kg) de várias hortícolas de folha, como acelga, alface, coentro, couve Kale, manjericão, salsa e couve pak choi.
- Num mundo perfeito, quantas hortas ou espaços de cultivo deveria haver por cada mil habitantes numa cidade?
Dar uma resposta objetiva a esta pergunta é impossível, uma vez que depende muito do tipo de hortas ou espaços de cultivo, da própria organização de cada cidade, entre outros fatores.
O que podemos dizer é que uma das visões que nos move é a ideia de criar ‘cidades comestíveis’, seja através de hortas verticais, hortas em solo, jardins comestíveis, pomares, ninhos agroflorestais. Quem visitar o site da Upfarming encontra imediatamente o nosso compromisso: promover ‘cidades mais comestíveis e conectadas, através de projetos de horticultura urbana que fortalecem a relação entre pessoas, alimentos e território’.
Ou seja, para a Upfarming todas as pessoas que habitam cidades devem ter, não só acesso a alimentos frescos e Km0 (de produção local), mas mais do que isso, devem ter um papel ativo na produção desses alimentos.
Para a Upfarming todas as escolas deviam ter hortas, todos os hospitais, todos os bairros, todas as prisões, todos os escritórios.
- Porque produzem alimentos de qualidade, aumentando a saúde e a segurança alimentar;
- Porque são ferramentas excecionais de aprendizagem sobre temas de alimentação e ciência;
- Porque desenvolvem a nossa ligação à natureza, infelizmente tão ausente do espaço urbano, diminuindo o stress associado aos ambientes citadinos;
- Porque desenvolve o espírito de comunidade em locais em que na maioria das vezes nem se conhece o vizinho do andar de cima.
Por todas estas razões e outras, acreditamos verdadeiramente que nunca seriam demais.
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