“Os livros são um estímulo cognitivo para os idosos”

É autora de ‘Os Pombos da senhora Alice – Envelhecer em Portugal’ e foi a convidada da última tertúlia promovida pela Comunidade Online de Leitores do Oeste. Ana Catarina André, jornalista e escritora, explica o que a levou a dedicar-se aos problemas da população sénior, dando exemplos concretos. E sem esquecer o papel da literatura: afinal, os livros serão sempre uma companhia para quem tantas vezes enfrenta a solidão.
- Costuma participar em tertúlias deste género? Como as compara com este encontro com a COLO?
- Costumo participar sobretudo em tertúlias presenciais, mas este modelo também é interessante, uma vez que chega a pessoas de diferentes concelhos de uma mesma região.
- A sua costela do Oeste fez-se sentir nesta reunião? Falaram disso?
- Sim, houve naturalmente um sentimento de pertença, apesar de o tema ter sido abordado apenas no início da sessão.
- O que mais a surpreendeu?
- Os comentários e as partilhas foram muito interessantes. Com o crescente envelhecimento da população, este é um tema que desperta o interesse de cada vez mais pessoas, seja porque um dia seremos idosos, seja pelo contacto que temos com os nossos avós e pela necessidade de cuidarmos deles.
- Que papel pode desempenhar a leitura para os idosos, uma faixa da população maioritariamente com baixa taxa de literacia?
- Os livros têm sempre a capacidade de nos entregar novos horizontes, o que é fundamental em qualquer faixa etária. No caso dos idosos, e atendendo à solidão de muitas destas pessoas, os livros podem desempenhar um papel fundamental no bem-estar. Mas não só. São também um estímulo cognitivo.
- O que a levou a dedicar-se a este tema na sua escrita?
- Sempre me interessei pelos mais velhos, sobretudo pelas conversas e pelas histórias que proporcionam. Felizmente cresci rodeada de idosos, a começar pelos meus avós que tanto contribuíram para o meu crescimento. Além disso, enquanto jornalista, considero que o envelhecimento é um dos principais temas a considerar, quando se pensa no futuro de Portugal.
- Sendo Portugal um dos países mais envelhecidos do mundo, quão elevada é a margem para acompanhamento e melhoria da qualidade de vida da população idosa e que mais pode ser feito para mitigar os seus problemas?
- Atendendo às questões descritas no livro, e que têm a ver com temas como as condições de habitação, as baixas reformas, o acesso aos cuidados de saúde e a solidão, há uma margem muito significativa para melhoria. As soluções terão de ser naturalmente integradas para que esta seja uma fase da vida com qualidade.
- Havendo tanta matéria, pretende continuar a explorar esta temática nos próximos livros?
- Pondero fazê-lo sim, apesar de não ser uma decisão fechada.
- Teve de fazer muita pesquisa no seu trabalho. Pode descrever de forma resumida o seu processo de recolha de histórias?
- O livro resulta, numa fase inicial, de um conjunto de entrevistas a especialistas na área do envelhecimento, como forma de conhecer mais detalhadamente esta realidade. Posteriormente, realizei um conjunto de entrevistas a mais de uma dezena de idosos a residir em contextos distintos (lar, casa própria, residência). São eles os protagonistas do livro. A maioria das histórias passa-se num contexto citadino, mas há também um capítulo dedicado ao envelhecimento na aldeia. Visitei estas pessoas durante várias semanas para poder descrever com detalhe o seu quotidiano e as principais dificuldades que enfrentam.
- Qual foi o pior caso que encontrou nas suas pesquisas?
- Se com pior se refere a condições de habitabilidade degradantes, diria que uma senhora que vive em Alfama e que, para se alimentar, recorre às carrinhas noturnas de distribuição de comida. Mora num espaço exíguo, habitado também por centenas de insetos.
- Se tivesse de definir numa única palavra o que é ser idoso, qual seria?
Sabedoria. No entanto, nem sempre é devidamente valorizada. Temo mesmo que a tendência se agudize.