goTositemap
Ação Social; Educação e Formação; Mobilidade

“Queremos garantir que nenhuma criança fique de fora da experiência ciclável”

13 de novembro, 2025
Oeste CIM
image

Chama-se ‘Special O.NE’, a bicicleta para alunos com necessidades educativas especiais que antes era “um símbolo de diferença e tornou-se motivo de união”. Nuno Amaro, CEO, da Nuno Zamaro Mobility, revela como surgiu a ideia que está a ser posta em prática por todo o país e em particular na região Oeste, através do projeto Observa&MOBE – Observatório de Mobilidade Escolar Ativa, Ciclável e Inclusiva. “Quando os pais nos diziam que não tinham grandes expectativas e acabavam profundamente emocionados com a reação dos seus filhos” é, provavelmente, a melhor recompensa de quem se dedica a criar “mais inclusão, mais autonomia, mais sorrisos nas escolas”.

 

- Como surgiu a ideia de criar esta bicicleta tão específica e inovadora para crianças com necessidades especiais?
- Ao longo do nosso trabalho em todo o país, percebemos que algumas crianças com perturbações do espetro do autismo tinham dificuldade em aderir às balance bikes convencionais. Num desses encontros, uma criança permitiu que a tocássemos - algo raro. Notámos que, ao colocarmos uma mão nas costas e outra na zona do peito, a criança sentia-se mais segura e começava a mover os pés num ritmo sincronizado. Sempre que retirávamos as mãos, o movimento cessava. A partir daí surgiu a ideia: criar uma bicicleta com assento e cinto de segurança que proporcionasse estabilidade e conforto. O resultado foi surpreendente - 99% das crianças que testaram reagiram positivamente. Das duas bicicletas iniciais, passámos para vinte, e hoje já são 51 unidades ativas em escolas e instituições por todo o país.

 

- Em que momento perceberam que estavam a criar algo realmente transformador?
- Quando os pedidos começaram a ultrapassar o número de bicicletas disponíveis e, sobretudo, quando os pais nos diziam que não tinham grandes expectativas e acabavam profundamente emocionados com a reação dos seus filhos. Foi nesse momento que percebemos que tínhamos criado algo que realmente mudava vidas - não apenas das crianças, mas também das suas famílias e educadores.

 

- Que tipo de especialistas estiveram envolvidos no desenvolvimento (terapeutas, professores de educação especial, engenheiros)?
- Curiosamente, este projeto nasceu da experiência prática, não do desenho técnico. A nossa equipa foi o motor principal, apoiada por centenas de experiências reais com crianças com necessidades educativas especiais. Tivemos, no entanto, o apoio essencial da Polisport, empresa portuguesa líder mundial na produção de equipamentos para bicicletas, que aceitou o desafio de desenvolver um produto tão específico. O contributo de educadores e técnicos dos agrupamentos escolares foi igualmente determinante. A Special O.NE nasceu da experimentação direta, do contacto com a realidade e da vontade genuína de criar uma solução eficaz - e não apenas de um conceito teórico. 

 

Descobrimos, por exemplo, que basta virar uma bicicleta ao contrário e fazer girar as rodas, como uma roleta, para despertar o interesse de algumas crianças

 

- Como garantem que a bicicleta se adapta a diferentes tipos de necessidades e níveis de mobilidade?
- É impossível garantir uma fórmula única para realidades tão distintas. O que fazemos é observar, testar e adaptar, procurando compreender o que motiva cada criança. Descobrimos, por exemplo, que basta virar uma bicicleta ao contrário e fazer girar as rodas, como uma roleta, para despertar o interesse de algumas crianças. Não encontrámos referências literárias ou científicas sobre isto - fomos nós que o descobrimos na prática. Assim, a Special O.NE não é apenas uma bicicleta, é uma ferramenta de descoberta e comunicação entre a criança e o mundo à sua volta.

 

- Durante os testes ou demonstrações, houve alguma história curiosa ou emocionante que possam partilhar?
- Inúmeras. A primeira que nunca esqueceremos foi a de uma criança muito resistente ao uso da balance bike tradicional, que reagiu de forma completamente diferente quando experimentou a Special O.NE. De repente, o choro transformou-se em calma e alegria. Nesse dia percebemos também o poder inclusivo da bicicleta - todos os colegas queriam experimentar aquela bicicleta ‘diferente’, e o que era um símbolo de diferença tornou-se motivo de união. Mais recentemente, durante uma visita do Observa&MOBE, tivemos uma experiência marcante com uma criança com Síndrome Smith-Magenis, uma condição genética complexa. A reação foi tão positiva que decidimos oferecer uma Special O.NE à escola, para que pudesse continuar a utilizar o equipamento sempre que desejasse. O tour apoiado pela OesteCIM revelou vários casos semelhantes, confirmando o enorme impacto social e emocional deste projeto.

 

Há interesse real em levar esta bicicleta para outros países, como um exemplo de inovação social com selo português

 

- Quais foram os maiores desafios que encontraram ao longo do desenvolvimento desta bicicleta?
- O maior desafio tem sido a produção em escala. Todas as bicicletas são atualmente montadas manualmente pela nossa equipa, o que limita a sua disseminação. Mesmo assim, temos conseguido dar resposta a quem mais precisa. Curiosamente, durante visitas de delegações da Alemanha, Suíça, Áustria e Países Baixos - interessadas em conhecer a indústria portuguesa da bicicleta -, a Special O.NE tem despertado enorme curiosidade. Para eles, o que nos distingue é precisamente o foco humano e inclusivo, algo que falta em muitos dos seus projetos. Hoje, há interesse real em levar esta bicicleta para outros países, como um exemplo de inovação social com selo português.

 

- O que esperam alcançar a longo prazo com esta bicicleta - mais inclusão, mais autonomia, mais alegria nas escolas?
- Tudo isso, e mais. A Special O.NE é um ponto de partida para novas soluções inclusivas, pensadas para acompanhar o crescimento das crianças ao longo das várias fases da vida escolar. Queremos garantir que nenhuma criança, independentemente da sua condição, fique de fora da experiência ciclável. Porque pedalar é mais do que mover-se — é sentir, crescer e pertencer. A longo prazo, o nosso objetivo é claro: mais inclusão, mais autonomia, mais sorrisos nas escolas.

 

Artigo relacionado:

OesteCIM lança o Observa&MOBE: Por uma Mobilidade Escolar Mais Ativa, Segura e Sustentável

Última Atualização 11 novembro, 2025

Partilhar

Partilhar