“Descobrir uma nova espécie é um privilégio raro”

Natural de Caldas da Rainha, na região Oeste, e movida por uma curiosidade sem limites, a bióloga Rita Eusébio tem dedicado a sua carreira ao estudo da vida que habita os mundos subterrâneos. Apaixonada pelos invertebrados e pelos ecossistemas escondidos sob os nossos pés, foi no âmbito do seu doutoramento que protagonizou uma descoberta notável: uma nova espécie de bicho-de-conta encontrada no Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros, uma revelação que reforça o valor da ciência feita em Portugal.

- Como é que surgiu a descoberta do novo “bicho-de-conta”?
- A descoberta surgiu no âmbito do meu doutoramento, durante o estudo de comunidades de invertebrados que habitam coluviões em Portugal. Coluviões são habitats subterrâneos que estão localizados entre a superfície e as grutas em termos de profundidade, e são compostos por fragmentos rochosos que se acumulam em encostas inclinadas. Entre os fragmentos rochosos existem pequenos espaços preenchidos por ar, e é nestes espaços que os animais vivem. Em Portugal, os coluviões são habitats protegidos pela Rede Natura 2000.
Após a recolha das amostras, selecionei todos os bichos-de-conta e viajei até Florença, mais especificamente até ao Museu La Specola, para trabalhar com o Dr. Stefano Taiti, um especialista neste grupo de animais. Durante o processo de identificação das espécies, apercebemo-nos de que uma delas era diferente das outras e que se tratava de uma espécie nova para a ciência.
- O que torna esta nova espécie diferente dos “bichos-de-conta” que todos conhecemos desde crianças?
- Esta espécie distingue-se das outras espécies de bicho-de-conta pertencentes ao género Eluma por várias características, sendo a mais visível as cristas presentes em cada segmento do corpo, uma estrutura que não encontramos em nenhuma das outras espécies.
- Onde foi encontrada esta nova espécie e em que condições ambientais vive?
- Esta espécie foi descoberta exclusivamente num coluvião localizado nas Alcobertas, na zona sul do Maciço Calcário Estremenho, dentro do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros. Embora exista uma gruta nas proximidades, até agora o animal só foi encontrado no coluvião.
O facto de a espécie ocorrer num único local torna-a particularmente especial, mas também vulnerável. Se esse habitat for destruído ou alterado e a espécie não existir noutro local, poderá desaparecer completamente do planeta.
- Qual é o impacto desta descoberta para a ciência, especialmente no campo da biodiversidade subterrânea e da zoologia?
- Descobrir uma nova espécie é sempre um momento marcante para a ciência, porque além de aumentar o nosso conhecimento sobre a biodiversidade, lembra-nos que ainda há muito por explorar e compreender no mundo natural.
No caso desta espécie, a descoberta enriquece o conhecimento sobre a biodiversidade encontrada em habitats subterrâneos e fornece novos dados para compreender a distribuição dos bichos-de-conta. Além disso, reforça a necessidade de continuar a investir na investigação taxonómica e na biodiversidade subterrânea.
- De que forma esta descoberta pode ajudar-nos a compreender melhor os ecossistemas subterrâneos e a sua importância?
- Esta descoberta mostra que mesmo em habitats discretos e pouco acessíveis como os coluviões, existe uma vida altamente adaptada a condições muito particulares (como a ausência de luz, a elevada humidade e temperaturas mais estáveis do que à superfície).
Além de revelar a existência de espécies únicas e especializadas, reforça o papel destes habitats como refúgios de biodiversidade.
Ao mesmo tempo, cada nova espécie descoberta ajuda a chamar a atenção da comunidade científica e do público para estes ecossistemas pouco estudados e de difícil acesso, que tendem a ser negligenciados.
- O que representa para si fazer esta descoberta?
- Descobrir uma nova espécie é um privilégio raro e faz-nos lembrar porque escolhemos a ciência: pela curiosidade e pelo fascínio pelo desconhecido. É muito gratificante perceber que o nosso trabalho ajuda a revelar algo que ninguém tinha visto antes e que pode contribuir para proteger a natureza. Traz também um sentimento de grande responsabilidade, porque cabe-nos a nós garantir que esta informação é partilhada, valorizada e usada para proteger os habitats onde estas espécies vivem.

- O que a motivou a trabalhar na área da ciência?
- Desde pequena que sempre tive uma grande paixão pela natureza, mas foi nos meus primeiros anos de universidade que descobri o meu fascínio pelos invertebrados, talvez por serem tão diversos e, ao mesmo tempo, tão incompreendidos. Mais tarde, durante um estágio Erasmus no Museu de História Natural de Copenhaga, orientado pela Professora Ana Sofia Reboleira, tive o primeiro contacto com os habitats subterrâneos. A partir daí, apaixonei-me completamente por este mundo elusivo e misterioso, onde ainda há tanto por explorar e descobrir.
- Como é que tem sido a sua experiência enquanto mulher a trabalhar em projetos científicos num meio que, historicamente, tem sido maioritariamente masculino?
- Ao longo do meu percurso académico tenho tido a sorte de trabalhar com mulheres cientistas absolutamente extraordinárias, que, em conjunto, têm contribuído para construir uma base sólida e segura onde é possível fazer ciência de qualidade. Também tenho tido o privilégio de colaborar com homens competentes e respeitadores, que acreditam, tal como nós, num futuro de igualdade e cooperação na ciência. Esta combinação tem sido fundamental para criar ambientes de trabalho mais inclusivos e inspiradores.
- De que forma acha que a presença e o reconhecimento das mulheres na ciência têm evoluído nos últimos anos, e que impacto isso tem na forma como a investigação é feita e valorizada?
- Nos sítios por onde tenho passado e trabalhado, felizmente vejo cada vez mais mulheres a fazer ciência e a serem reconhecidas pelo seu trabalho. Isso é muito inspirador e mostra que já percorremos um bom caminho. No entanto, também sei que esta não é a realidade em todo o lado, ainda há muito por fazer para quebrar a desigualdade que existe.
Acredito que, se continuarmos o bom trabalho e não deixarmos de lutar, havemos de chegar a um ponto em que o género deixe realmente de ser um obstáculo. E quando isso acontecer, a ciência só tem a ganhar, vai tornar-se mais justa, mais diversa e, sem dúvida, mais rica.
- Que mensagem gostaria de deixar aos jovens estudantes e futuros cientistas?
- Sigam os vossos sonhos. Se existe uma ideia, existe uma forma de a concretizar. Precisamos de pessoas que se importem com a natureza, que a protejam e que salvaguardem o futuro.
A ciência é feita de curiosidade, de persistência e, sobretudo, de paixão. Nem sempre o caminho é fácil, mas é profundamente recompensador. Sejam curiosos, façam perguntas, errem, aprendam e não deixem que o medo de falhar vos impeça de tentar. O mundo ainda está cheio de coisas por descobrir, e talvez a próxima grande descoberta esteja nas vossas mãos.