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Património

“Rota Histórica das Linhas de Torres merece ser Património da Humanidade”

18 de outubro, 2024
Oeste CIM
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‘Ficar a ver navios’, ‘Sair à francesa’, ‘Ir para o maneta’, ‘Ir de armas e bagagens’ são apenas algumas expressões no nosso dia a dia que nasceram com as invasões francesas no século XIX. Mas o legado deste período tem uma dimensão muito mais abrangente porque foi feita à custa de sacrifícios e sofrimento do povo. Sandra Oliveira, do Centro de Interpretação das Linhas de Torres, no Sobral de Monte Agraço, explica a engenharia que esteve por detrás da construção do maior e mais eficaz sistema defensivo da Europa, como é feita a sua preservação e o que ainda deve ser desenvolvido para divulgar este património. “Para muitos franceses, as invasões napoleónicas foram só até Espanha”, afirma. Dia 20 celebra-se o Dia Nacional das Linhas de Torres, criado há 10 anos na Assembleia da República. Aproveite este fim de semana para mergulhar na História.

- Cumprem-se agora 10 anos desde que foi criado o Dia Nacional das Linhas de Torres. Evitar a dispersão de datas e acontecimentos e concentrar a história num determinado período foi o principal objetivo? Notaram ganhos nesse sentido ao longo destes 10 anos?

- Sim. Um dos principais objetivos da criação do Dia Nacional das Linhas de Torres foi concentrar uma narrativa histórica num momento único e simbólico, evitando a dispersão de dados e acontecimentos relacionados com as Invasões Francesas e as Linhas de Torres. A intenção foi criar um marco que unisse os municípios envolvidos e ajudasse a divulgar a sua estratégia comum para valorizar este património e a história de um dos episódios mais marcantes, não só de Portugal, mas também da Europa. Desde que, há quase duas décadas, os municípios de Arruda dos Vinhos, Loures, Mafra, Sobral de Monte Agraço, Torres Vedras e Vila Franca de Xira deram os primeiros passos na criação da Plataforma Intermunicipal para as Linhas de Torres (PILT), o trabalho em rede e o dever de cooperação foram essenciais para garantir a estabilidade e o sucesso do trabalho desenvolvido. Essa colaboração conjunta evoluiu, em 2017, com a criação da Rota Histórica das Linhas de Torres – Associação para o Desenvolvimento Turístico e Patrimonial das Linhas de Torres Vedras, que hoje conta com 14 associados, entre entidades públicas e privadas, incluindo os municípios de Bombarral e Lourinhã, reconhecendo o papel central das batalhas da Roliça e do Vimeiro na nossa história. Os ganhos ao longo dos últimos 10 anos foram significativos. A instituição do Dia Nacional das Linhas de Torres, pela Assembleia da República Portuguesa, fixando 20 de outubro como dia nacional, foi uma justa homenagem à memória e resistência do povo português aliada à estratégia e engenharia militar. Anualmente, as comemorações são coorganizadas por um dos municípios da RHLT, o que tem permitido não só registar a importância histórica das Linhas de Torres Vedras, mas também fortalecer a cooperação entre os municípios e promover o território de uma forma integrada e contínua. A celebração deste dia preserva as Linhas de Torres como um símbolo de resistência e da soberania nacional, e as comemorações anuais têm funcionado como uma plataforma de diálogo entre passado, o presente e futuro, envolvendo não apenas os municípios, mas também parceiros culturais, educacionais e turísticos. Além disso, o reconhecimento do trabalho realizado com o Prémio Europa Nostra, atribuído, em 2014, pela União Europeia deu um impulso adicional aos municípios envolvidos e ajudou a consolidar o papel das Linhas de Torres como um recurso patrimonial e educacional de grande valor. O Dia Nacional das Linhas de Torres é, sem dúvida, um momento de celebração e de reflexão sobre o nosso legado, que continua a inspirar novas gerações e a contribuir para a preservação e promoção do nosso património.


- Que iniciativas estão previstas para este dia?

- Este ano, Sobral de Monte Agraço é o município anfitrião das comemorações do Dia Nacional das Linhas de Torres. Como o dia 20 de outubro calha a um domingo, o município decidiu estender as celebrações ao fim da semana, proporcionando uma oferta cultural diversificada para toda a família e o público em geral. Em parceria com a Rota Histórica das Linhas de Torres e a Associação de Cultura e Recreio 13 de Setembro de 1913, o programa tem início no sábado [dia 19], às 10h00, com o desfile dos grupos de recriação histórica, seguido do hastear da bandeira nos Paços do Município. Durante o dia, entre as 11h00 e as 18h00, a Praceta 25 de Abril será palco de oficinas interativas, danças oitocentistas e animação de rua. Um dos momentos mais aguardados é a recriação da captura de um soldado inimigo e o julgamento. Mas o ponto alto de sábado acontece à noite, com a recriação histórica do Combate de Sobral, que decorre na Praça Dr. Eugénio Dias. O público poderá reviver os momentos de tensão de 12 de outubro de 1810, quando o general francês Jean-Andoche Junot e as suas tropas invadiram a vila, enfrentando o Regimento 71. O combate intensifica-se nas ruas, resultando na destruição de muitos bens, do arquivo municipal e num caos generalizado. Quem quiser saber mais sobre como tudo se desenrolou, convidamos a vir assistir à recriação do combate e descobrir como tudo terminou.

No domingo [dia 20], as celebrações continuam com o hastear da bandeira e uma homenagem ao esforço do povo português na construção das Linhas de Torres, que terá lugar nos Paços do Município. Pelas 15h30, no Cine Teatro de Sobral de Monte Agraço, decorrerá a cerimónia oficial do Dia Nacional das Linhas de Torres, destacando-se do programa a entrega dos Prémios Wellington Honor, que premeiam o mérito de pessoas ou entidades em cinco categorias: Acessibilidade e Inclusão, Ambiente e Sustentabilidade, Cultura e Criatividade, Desporto e Aventura, e Promoção e Divulgação. As comemorações chegarão ao fim com ‘Linhas de Honra’, que brindará à vitória da tolerância e da paz. Porém, durante o mês de outubro, estão a decorrer no território da Rota Histórica das Linhas de Torres várias outras atividades tais como: caminhadas, ciclos de cinemas, exposições, música, oficinas de azulejaria, hospital de campanha, medicina a partir das plantas e modelagem, palestras, passeio de BTT, recriações históricas, teatro, contos infantis e visitas guiadas. O programa completo pode ser consultado aqui. Para os amantes de boa gastronomia, está a decorrer entre 10 e 27 de outubro, a iniciativa ‘À mesa dos generais’ em vários restaurantes aderentes. Em Sobral de Monte Agraço, o visitante poderá viajar até ao início do século XIX, no restaurante Pôr do Sol, em Via Galega.


- Tem aumentado a afluência nas visitas ao Centro Interpretativo das Linhas de Torres e na Rota Histórica das Linhas de Torres?

Sem dúvida. No município de Sobral de Monte Agraço temos feito um investimento consistente e contínuo na preservação, valorização e musealização quer da exposição do Centro de Interpretação das Linhas de Torres (CILT) quer do Circuito do Alqueidão – um circuito de visita ao ar livre, situado na serra do Olmeiro, muito próximo da vila, e composto por quatro fortes visitáveis, um dos quais o maior forte das Linhas de Torres – o Forte do Alqueidão – onde o comandante do exército aliado, Arthur Wellesley (Wellington) estabeleceu o seu posto de comado tático. Nos últimos anos, o CILT, com a Rota Histórica das Linhas de Torres, que o município de Sobral de Monte Agraço preside através do seu presidente, José Alberto Quintino, tem trabalhado para criar novos recursos turísticos e pedagógicos, através do desenvolvimento de materiais como mapas ilustrados, áudio guias, kits de acessibilidade, jogos didáticos, publicações para diferentes faixas etárias e tecnologias como realidade aumentada e apps. Tudo isto para proporcionar aos visitantes uma experiência mais rica e diferenciada, ajudando-os a interpretar e usufruir este património histórico. Considerando que o tema das Invasões Francesas é lecionado nos 4.º, 6.º e 8.º anos de escolaridade, também apostamos fortemente em recursos educativos direcionados às escolas. Temos um programa educativo que tem contribuído para aumentar o número de visitas ao CILT, tanto por parte da comunidade escolar quanto das famílias. A colaboração com a Rede de Bibliotecas Escolares tem sido essencial na promoção da leitura sobre o tema, o que tem despertado a curiosidade e interesse pelo património das Linhas de Torres. Além disso, a integração do CILT e da Rota Histórica das Linhas de Torres em redes e itinerários nacionais e internacionais, como os Itinerários Napoleónicos de Portugal, as Rotas Napoleónicas por Portugal e Espanha e o Itinerário Cultural Europeu ‘Destino Napoleão’, tem permitido uma maior visibilidade. Com o apoio do Turismo de Portugal e da Entidade Regional do Centro de Portugal, conseguimos desenvolver novas abordagens que se refletem no aumento de visitantes.


- São mais os visitantes nacionais ou estrangeiros?

- Atualmente, os visitantes nacionais continuam a ser a maioria, mas nos últimos anos notamos uma diversificação significativa entre os visitantes estrangeiros. Começamos a receber visitantes de países mais distantes, como a Austrália, o Brasil, o Canadá, os Estados Unidos da América e os Países Baixos. Acreditamos que esta diversificação reflete o interesse crescente internacional pelo património histórico e cultural das Linhas de Torres, fruto do trabalho de promoção e da inclusão do nosso território nas redes e itinerários culturais e turísticos internacionais.

- Entre os estrangeiros contam-se muitos franceses? E o que dizem eles?

- Alguns franceses começam a visitar as Linhas de Torres, mas são ainda um número residual. A nós falta-nos também trabalhar para atrair esse público e alargar as traduções dos nossos recursos turísticos para a língua francesa. Notamos que, entre os franceses que nos visitam, existe um certo desconhecimento sobre os eventos que ocorreram em Portugal durante as campanhas napoleónicas. Para muitos, as campanhas ao Ocidente limitam-se à Espanha. Portanto, está do nosso lado completar essa história e dar a conhecer a importância das Linhas de Torres na narrativa histórica das invasões francesas, proporcionando uma experiência mais completa e educativa para todos.


- Para quem estuda e analisa este fenómeno, quão fascinante foi esta empreitada feita em apenas um ano e com os resultados que obteve?

- Quando falamos dos fortes das Linhas de Torres, não falamos de fortificações permanentes. Perante a ameaça francesa, Wellington muniu-se dos levantamentos já feitos anteriormente pelo Major Neves da Costa, que identificou uma área de terreno defensável a norte de Lisboa. A astúcia e inteligência do comandante britânico fizeram o resto. Além de ordenar a construção dos fortes, acautelou a manutenção do seu exército em boas condições físicas e morais e mandou construir uma série de obstáculos para desmoralizar o atacante. Desde covas de lobo a abatises, passando por paliçadas, escarpamentos, corte de árvores, represagem de rios, destruição de pontes e envenenamento de poços, nada parece ter sido deixado ao acaso. Contudo, é fundamental considerar o custo humano associado a essa realização. Milhares de pessoas, incluindo homens, mulheres e até crianças, trabalharam, durante um ano, sob ordens estrangeiras, abandonando as suas casas e enfrentando condições muito difíceis. Além disso, a política de terra queimada imposta como uma tática de guerra para enfraquecer as tropas francesas, aliada às pilhagens e ataques das mesmas, resultou na destruição de bens e num êxodo massivo da população para Lisboa e para dentro das Linhas de Torres. Assim, é essencial não apenas admirar a engenhosidade e a estratégia por trás das Linhas de Torres, mas também lembrar e honrar as vidas afetadas por esse período tumultuado da história. A importância desse legado é vital para entendermos as lições do passado e o impacto da identidade que teve na memória coletiva do povo português.


- O que seria preciso para elevar ainda mais o estatuto das Linhas de Torres como referência patrimonial e histórica do país?

- Atualmente, as Linhas de Torres estão classificadas como Monumento Nacional, porém a filosofia que presidiu à sua construção coincide com a afirmação dos novos valores europeus: liberdade, igualdade e fraternidade, protagonizando um importante papel num período histórico que mobilizou todas as nações europeias. O destino da Europa e do Brasil não foi alheio ao que aconteceu em Portugal no início do século XIX. O desfecho das campanhas napoleónicas em Portugal inspirou outros povos europeus e foi além da sua soberania. Também, o seu caracter arquitetónico absolutamente invulgar faz delas um património único, dotado de um valor universal excecional. A Rota Histórica das Linhas de Torres acredita, por isso, que são merecedoras de reconhecimento como Património da Humanidade.


- Quantos fortes ainda se mantêm intactos dos mais de 150 constituem as três linhas de defesa?

- Entre 2007 e 2011, os seis municípios fundadores da Rota Histórica das Linhas de Torres implementaram um projeto no âmbito dos EEA Grants, focado na inventariação, diagnóstico, proteção, conservação e valorização de diversas estruturas militares. Este esforço resultou na inclusão de aproximadamente 30 fortes numa rota cultural e turística, permitindo que se tornassem visitáveis ao público. Estes fortes estão organizados em seis percursos temáticos de visita, que em breve passarão a ser oito, com o desenvolvimento de dois novos percursos que incluem o Bombarral e a Lourinhã. Embora os restantes fortes tenham sido também devidamente inventariados e registados para memória futura, não foram sujeitos a intervenções arqueológicas e musealizações. Devido às características físicas que os tornam peças bastante vulneráveis, os fortes das Linhas de Torres exigem um cuidado especial, pois a sua preservação é crucial. Portanto, foi necessário encontrar um equilíbrio entre a conservação dessas estruturas históricas e a pressão turística que elas atraem, garantindo que possam ser desfrutadas pelas futuras gerações sem comprometer a sua integridade.


- As invasões francesas é um tema suficientemente explorado na História de Portugal?

- Ainda não é, mas tem melhorado significativamente. Acreditamos que isso se deve, em grande parte, ao projeto ‘A Mochila do Soldado: Partir da Guerra para a Paz’ desenvolvido pela Rota Histórica das Linhas de Torres em parceria com a AIDGLOBAL: Ação e Integração para o Desenvolvimento Global, uma organização não-governamental. O projeto apoiado pelo Camões: Instituto da Cooperação e da Língua Portuguesa mostrou como a partir da história, nomeadamente da história das Invasões Francesas, podemos abordar questões como a guerra, a liberdade, o acesso à água, a igualdade de gênero, as migrações forçadas, entre outros temas, infelizmente tão atuais. Gradualmente, esta iniciativa assim como uma outra que faz do jogo de tabuleiro ‘Napoleão Bonaparte: o princípio do fim’ uma forma de aprender história e de pensar vários assuntos, estão a contribuir para mudar a forma como a história é vista. Lentamente, a história começa a ser reconhecida como uma fonte de conhecimento, que nos dá ferramentas que nos capacitam para uma maior consciência cívica e social. Essa nova abordagem pode contribuir para a formação de uma sociedade mais consciente e comprometida com os desafios globais que enfrentamos hoje. Além disso, têm sido promovidas fam e press trips bem como publicações em meios de comunicação nacionais com o objetivo de divulgar este património.


- Além da vertente militar, as invasões francesas tiveram impacto na cultura nacional e local. Que outros exemplos nos podem dar, desses anos tão intensos que deixaram marca?

- Isso é certo. Esse período histórico deixou marcas que permanecem até aos nossos dias e que fazem parte ora da cultura local, ora da cultura nacional. Expressões que usamos diariamente como ‘Ficar a ver navios’ ou ‘Sair à francesa’, ‘Ir para o maneta’, ‘Ir de armas e bagagens’, entre muitas outras ou pratos como a chanfana, a lampantana, a canja à doentes e o famoso bife de Wellington, sem esquecer alguns vinhos e aguardentes que continuam a marcar presença nas nossas mesas, têm as suas histórias embrenhadas com a das invasões francesas de Portugal. Nos locais onde passaram as tropas francesas, e são muitos de norte a sul do país, ou em que se realizaram combates e recontros militares, não faltam histórias para contar. Em Sobral de Monte Agraço, por exemplo, a casa mais abastada da vila foi poupada à fúria das tropas francesas pelo facto do seu proprietário, o conde de Sobral, ser casado com uma francesa, filha de um dos ajudantes-de-campo de Napoleão; muitos sobralenses terão já ouvido falar da ‘rua das casas queimadas’, mas poucos sabem que ficou conhecida por esse nome devido aos incêndios e destruição provocados pelas tropas francesas durante o combate de Sobral, a 12 de outubro de 1810, e da ocupação da vila pelas tropas napoleónicas durante o mês em que estiveram frente às Linhas de Torres, num compasso de espera para marchar sobre Lisboa. O que nunca veio a acontecer!


- Se tivesse oportunidade de viajar no tempo e pudesse fazer uma pergunta ao duque de Wellington, qual seria?

- Poderia perguntar-lhe ‘Quais lições sobre liderança e estratégia militar que consideraria mais relevantes para manter a paz face aos desafios globais e sociais que enfrentamos atualmente?’

Última Atualização 12 dezembro, 2024

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